Artigo

Comunicação Não Violenta para além da forma (ou seria, fórmula?)

por Sergio Luciano

Já ouvi pessoas falando que a Comunicação Não Violenta é uma super técnica que pode nos ajudar a se comunicar melhor. Aliás, eu ouço e leio isso 95% do tempo, quando esbarro em algo mencionando a CNV.

Também já vi pessoas defendendo que a CNV não é uma técnica, que isso é raso. Que, na verdade, é uma visão de mundo transformadora que nos convida a mudar a forma que olhamos para, e vivemos, nossas relações.

Confesso que já fui estas duas pessoas, na real. Em diferentes momentos da minha vida. E, com o tempo, comecei a investigar o valor de cada uma destas vozes. Para onde cada uma delas apontava.

Quero te contar onde cheguei, até agora, com minha investigação. E adianto que não falo em nome de Marshall Rosenberg, quem propôs a CNV tal qual é conhecida. Meu objetivo é seguir adiante, honrando suas raízes, e adicionando minha contribuição para sua contínua transformação e disseminação. Tenho um trabalho dialético sério entre a CNV e demais estudos que faço ao longo de mais de 8 anos.

O método

Primeiro, imagine a CNV como um conjunto de saberes super bem organizados, para que tenhamos um lugar para pisar. Um ponto de partida para começar a dar nossos primeiros passos. Tipo a rodinha da bicicleta, que contribui para mais segurança na hora de aprender a pedalar.

As rodinhas são os tão conhecidos 4 passos:

Observações >> Sentimentos >> Necessidades >> Pedidos

  1. Conte o que você observa.
  2. Expresse seus sentimentos.
  3. Diga quais são suas necessidades.
  4. Faça um pedido claro.

Tudo. Numa. Mesma. Frase. É comumente divulgado que precisamos expressar tudo isso de uma vez, seguindo bonitinho os 4 passos.

— Quando eu te escuto dizendo isso e aquilo, e vejo tal coisa sendo feita, eu me sinto assim e assado. Pra mim é importante essa, essa e essa necessidade. Gostaria de te pedir que fizesse A e B, e assim cuidaria do meu bem-estar.

Parece mecânico. Robótico. Artificial. E, sinceridade: de fato é. E te conto o porquê.

As rodinhas da bicicleta nos trazem segurança. Com elas, podemos entender melhor como funciona essa coisa doida de andar de bicicleta. Assim são os 4 passos.

Porém, a aventura com a bicicleta começa, mesmo, quando tiramos a rodinha. Quando começamos a pedalar sem ela. Quando os ensinamentos como os abaixo se tornam minimamente internalizados e nos desafiamos a andar sem rodinha, prestar atenção no trânsito, desviar dos obstáculos, e muito mais… sem cair.

  • Olha pra frente, menino, e não pro pneu da bike
  • Mantenha as mãos firmes no guidão
  • Nunca aperte o freio da frente com tudo
  • [ Coloque aqui outros ensinamentos que te contaram ]

E aqui começa a segunda parte, o desafio no mundo real.

A visão de mundo

Esqueça os quatro passos. Tenha em mente que muito mais do que falar palavras fofas e certinhas, muito mais do que formular a frase mais maravilhosa que os 4 passos ficariam orgulhosos da gente, muito mais do que fazer o pedido perfeito e irrecusável…

A coisa toda é sobre fazer escolhas conscientes e compreender aspectos mais sutis, menos óbvios e deveras subjetivos. Pois, apesar de existirem conceitos gerais, vivemos cada um deles pela nossa régua individual.

1) Eu quero me conectar com o outro?

Te apresento o desafio hercúleo de manter a intenção de conexão.

2) Eu estou disposto a me responsabilizar pelo que digo e faço?

Esse é o duro convite à autorresponsabilidade, que não significa uma ideia irresponsável de que a pessoa é a única responsável e ponto final.

3) Eu entendo que o outro também é corresponsável, mas não único responsável? E vice-versa?

Aqui começa a longa conversa sobre responsabilidade compartilhada e negociação de novos caminhos.

4) Eu compreendo que minha intenção nem sempre vai chegar do jeito que eu gostaria?

Bem-vinda à diferença entre intenção e impacto, e seus impactos em nosso relacionar-se.

Aí, a gente volta para os famosos 4 passos, com um olhar mais fresco. Mais profundo.

Observações (e interpretações)

Estamos o tempo todo interpretando, e isso não vai mudar nunca. Viver é interpretar. O segredo está no saber discernir entre aquilo que ambos estamos vendo e ouvindo (fatos) e aquilo que achamos sobre o que estamos vendo (interpretações).

E, claro, assumirmos a responsabilidade pelas interpretações que fazemos.

Sentimentos

É maravilhoso ter consciência e nomear o que sentimos, mas nem sempre conseguimos. Aliás, às vezes é um porre ter alguém querendo adivinhar nosso sentimento.

Porém, a compreensão de que sentimentos apontam para necessidades atendidas ou não atendidas, é a chave. Olhar os sentimentos como meio, não como fim em si mesmo.

Nem sempre eles precisarão ser nomeados, mas é importante compreender sua importância.

Necessidades (e estratégias)

Mais que nomear a necessidade enquanto palavra, o negócio é entender o seu contexto. Não basta dizer que buscamos segurança, é preciso compreender o significado de segurança para os envolvidos.

Ou seja: o que precisa ser feito ou dito, que teremos a sensação de que estamos seguros e, consequentemente, nossa necessidade estará atendida.

Vulgo, quais estratégias funcionam, ou não funcionam, para nós?

E, adivinha: uma estratégia funcionar ou não é subjetivo. Depende de nossos filtros de… INTERPRETAÇÃO.

Calma. Essa é uma elaboração que tenho feito durante uns bons anos. Se quer ir a fundo nisso, dois convites: estuda comigo… ou leia tudinho que publico aqui e em demais mídias sociais.

Se quer profundidade, vira meu leitor de carteirinha. Vivo para escrever. Escrevo para viver. E provocar.

Pedidos

Nem sempre a pessoa, ou a gente, vai ter clareza do que queremos. Então, ainda que saber fazer pedidos claros seja importantíssimo, mais importante ainda é saber ver as entrelinhas dos pedidos, e identificar pedidos ocultos. Nossos, e dos outros.

Adicionalmente, entender que os pedidos são propostas de estratégias que, em nossa avaliação (alô interpretação, um beijo) vão melhor cuidar da gente do aquilo que está sendo, ou não sendo, feito atualmente.

Por último, vale lembrar que existe todo um processo de propor, negociar, ajustar e combinar, que permeia os pedidos. Entender esses processos é o que faz toda a diferença para tecermos um diálogo, e não apenas soltarmos pedidos ao vento.

Para terminar

Pra fechar, que lembrar que relacionar-se é fluir com o que está vivo.

  • Ora contando como nos sentimos.
  • Ora dizendo o que buscamos.
  • Ora expressando nossas interpretações sem perceber.
  • Ora reconhecendo nossas interpretações e contando o que realmente queremos, para além delas.
  • Ora focando escutar o que é importante para o outro.
  • Ora fazendo pedidos meio desajeitados.
  • Ora acertando os pedidos em cheio.
  • Ora negociando novos caminhos quando algo ainda não funciona para pelo menos uma das partes.
  • Ora tecendo novos combinados e reatualizando a relação.

Ora. Ora. Ora. Tudo isso é também viver a CNV?

Pois é. Pois é. Pois é.

Respostas prontas para o mais certo a se fazer numa conversa, até existem. Mas é fundamental dizer que toda resposta pronta não está preparada para… O AGORA.

Cada resposta, cada interação, vai nos pedir uma nova decisão. E esta decisão cabe a nós. Às vezes nos conformarmos à norma. Às vezes, desvirtuarmos a norma.

Viver a CNV é saber muito sobre o método, mas fluir a partir da integração de sua visão de mundo, muito além do método. Sem perder em vista o ser humano único que somos, e que está diante de nós.

Vem se aprofundar com a Humanize!

Se você gostou do conteúdo e gostaria de se aprofundar com a gente neste tema, e muitos outros, conheça mais sobre nossa comunidade de aprendizagem e prática.

Responses

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *